BRAVO
(Orlando Lencione)
“Há anos escrevi este texto – Sr. Orlando
já é falecido”
Do homem antigo sobrou tão pouco. A voz doce, os olhos
meigos.
Ele escreveu e colocou no papel toda sua arte e sua
vida.
Não foi um homem simples, não conseguiria ser um
simples homem. Era grande demais.
Como conviver com o convencional alguém assim tão
especial?
Mas ele conseguiu ser o mais humilde.
No paletó surrado e no olhar alguma coisa dizia que
ali se escondia um homem que fez de sua grandeza a singeleza da humildade.
Ele não se gabava jamais de seus grandes feitos.
Contava com toda simplicidade das suas vitórias como se o herói nem fosse ele.
Mostrava as medalhas e troféus como se na vida o costumeiro fosse pessoas
receberem congratulações e serem homenageadas todos os dias.
Agia com a naturalidade dos realmente superiores.
Eu o conheci há muitos anos e convivi com ele numa
relação de amizade e amor à arte, à poesia.
Nunca falamos tudo que tínhamos a dizer um ao outro.
Mas ele sempre pareceu saber tudo. Nunca foi preciso explicar nada.
Então o tempo foi nos arrastando nesta convivência de
parentesco e ao mesmo tempo de amizade e complacência.
O velho homem está acabado e não está. Ainda vibra uma
alma grande num corpo que ficou pequeno demais.
Deus! É doloroso vê-lo assim sem as duas pernas!
Seu caminhar sempre foi o de um homem justo.
Então por que a amputação?
Por que é preciso experimentar tamanha dor um homem
que na vida só desejou ser poeta e homem bom?
Deus tem resposta para todos os nossos porquês. Nós é
que não entendemos nada.
Mas é tão doloroso vê-lo assim, isto é.
Este bravo vivia a dizer que um bravo sempre cai de
pé.
sonia delsin


Nenhum comentário:
Postar um comentário